MICROCONTO DE NATAL – por Eva Cruz

MICROCONTO DE NATAL

por Eva Cruz

Pintura de Adão Cruz

O céu estava límpido, sem ponta de nuvem, e lá em cima brilhava uma luz tão intensa como se fosse uma estrela das grandes.

– Avô, que luz é aquela que brilha tanto como as estrelas?

– É a nave espacial, meu menino, um laboratório de ciência.

– Quem vive lá nos ares, avô, são homens ou pássaros que conseguem voar tão alto?

– Os homens vão em foguetões até à nave. De vez em quando, um foguetão vai – vem leva alimentos necessários à vida e às suas experiências.

– Que fazem os homens dentro dessa nave, tanto tempo?

– Contemplam a Terra e estudam o Universo. A Ciência é a grande mestra da Vida. Quem sabe, se não serás tu, um dia, também um cientista e possas salvar a Terra.

O menino, de tanto imaginar, adormeceu a contemplar a estrela, que não era estrela, e a lua através da vidraça do seu quarto. O avô deitou-se a seu lado. Velava o sono do menino.

Embalado pelo sonho, o menino voou pelas alturas como um passarinho, levando a cama e o avô nas suas asas.

As ondas do vento guiavam-no no mar do infinito. Sem outra consciência de si próprio, senão o pulsar do seu coração, entrava num deslumbramento por entre as estrelas. Eram tantas, tantas que lhes perdeu a conta. Passava-lhes ao lado, por baixo e por cima. Só não encontrava a estrela grande que via da janela do seu quarto. Mesmo rentinho à Lua, reconheceu o homem com o molho de lenha às costas que ele via da Terra em noites de lua cheia. Lá em baixo a Terra,  como um balão de fogo flutuava no ar. Muito perto, pendurada no céu, estava a estrela que não era estrela. Voou até ela mas não viu ninguém. Apenas telescópios, muitos telescópios… Pegou neles e voltou-os para a Terra. Já tinha saudades. Então os mares abriam-se aos seus olhos num torvelinho, e a força da água era tanta que saía em jacto do globo luminoso. Os lagos e os rios eram manchas azuis como num mapa e os campos salpicados de pequenos pontos. Ao longe ouvia-se um cântico muito suave “Paz na Terra aos Homens de boa vontade”. Lá do alto do seu castelo a Lua riu-se e fez uma careta: tudo isso é treta.

Quis o menino voltar ao seu planeta mas o globo de fogo explodiu e a Terra ficou mergulhada na sombra. Já não sabia o caminho e as estrelas estavam muito longe.

Então, aqui e além uns homens começaram a erguer-se, e fincando os pés na Terra cresceram tanto como gigantes. Subiram, subiram e chegaram à nave. Dali acendiam archotes e espalhavam luzes por toda a parte. Nem um pontinho sequer ficou às escuras. A Terra vestiu-se de verde e azevinho e os homens de boa-vontade reconheceram que na Terra era Natal. Havia gente às janelas para ver os homens descer do céu e agradecer-lhes. Por vezes, eles perdiam-se nas curvas dos caminhos, mas logo apareciam na sua grandeza.

O menino, levado pelo deslumbramento da sua viagem, desafiou a Lua e fugiu a uma velocidade estonteante para a Terra que agora o fascinava. Nesta queda vertiginosa acordou, estremecendo ao cair na cama.

A seu lado, o avô dormia. O menino não o quis acordar.

– Deve ser ele um dos gigantes que andam por aí a acender o Natal. Deixá-lo dormir.

 

 

Leave a Reply